Tira-me, o sono…
Dá-me o pesar.
Olha com calma, tudo se acalma
Faz-me só olhar…
Tira-me, o peso…
Que só faz cair.
Só um instante, mero semblante
Deixa-me possuir…
Tira-me, o canto…
Fique só com a voz.
Não possuo, não vejo, nem fruto: desejo
De um final qualquer…
Tira-me, a calma…
Tira-me, a alma!
Faz o que queres.
Seja o que quiseres.
Somente vá embora depois…
Tira-me, o pranto…
Tira-me, o manto!
Descubra-me todo, jogue-me ao lodo
Insira-me.
Inspira-me.
Impeça-me.
Tira-me a vida!
Tira-me as feridas!
Tira-me tudo!
Tira-me o mundo!
Tira-me o triunfo!
Tira-me o defunto!
Tira-me ao fundo…
Tire, logo… meu coração…
Apenas esqueça…
Que eu desapareça…
Que seja apenas, mera lembrança
Que não seja Menelaus, não seja Orfeu.
Que seja apenas Eu.
Um mero viajante…
Simplesmente constante.
Não há mais nada depois de um limite
Não há servo que ainda’sim insiste
Sou apenas… um simples imortal…
Tira-me o Dom.
Deixa-me morrer.