Poeta na Terra de Gigantes, ou na Terra de Anões
Bem, daqueles que me conhecem, sabem que escrevo poemas. Isso é verdade absoluta tanto quando F = dp/dt: por mais que muitos não saibam, o não saber não torna ilegítima a verdade. Mas, além dessa verdade, alguns sabem também que, raramente (e quando falo isso é porque é raro mesmo) eu me arrisco a escrever outras coisas; outros tipos de obras que, pelo sim ou pelo não, ainda estão inseridas na poética como um todo. E, ora essa, esse é o Poéticas, e é normal que coisas pertinentes à poética sejam tratadas nesse lugar.
Pois bem, pensando muito, e refletindo sobre diversas ocorrências no nosso mundo atual (ocorrências tais que, novamente, remetem à poética, ou seja, a grosso modo remetem aos relacionamentos dos dias de hoje), resolvi escrever uma crônica. É simples e singela. Sem muitos vocábulos arrojados (se é que tem), e que busca, em seu íntimo, chamar a atenção aos poucos que assim como eu, não concorda (embora viva e muitas vezes faça) com o modo como os amores se banalizaram em nosso tempo.
Enfim, chega de conversa. Leiam. Leiam e odeiem (ou amem, quem sabe…).
“O Poeta, nascido e vivido poeta, nomeado e agraciado com o dom da poesia, era alguém. Sim, claro que era alguém, como todos são, mas ressalvo aqui uma palavra usada em pleno significado: era. Digo que era, porque não é mais. Simples, fácil de entender, não? Mas, se desde tanto tempo sendo poeta, e chamado de Poeta por todos, por que o era ao invéz do é? Só voltando ao passado para endenter…
O Poeta, nascido e vivido poeta, nomeado e agraciado com o dom da poesia, vivia. Em um lindo lar, com belos campos para admirar, e belas coisas para cuidar. Viveu a vida dos felizes enquanto jovem, e se mudou para a vida dos loucos quando adulto.
De criação poética, desde cedo escrevia. Com seu primeiro poema colocado como trabalho na escola, com singelos dez anos, iniciou-se na escrita para os outros, coisa que antes só fazia no recondito do seu lar.
Logicamente, como criança que era, não poderia escrever para além das belezas do mundo (mesmo estando entre estas a beleza das mulheres…). E os anos passam… Passam rápido, mas tanto, de modo a beleza do mundo se tornar pequena, passo a das mulheres se tornar imensa. E, como novamente previamente foi dito, ele era poeta, chamado Poeta, nascido poeta e de poeta. E, bem, esse não era um mundo tão novo assim, para quem crescera vivendo o lado romantico da vida. A idealização, a paixão desnaturada, o morrer por tudo, o morrer de amor… isso era belo…
(ressalvo: era O belo)
Poeta crescendo, vendo e se apaixonando, em um mundo onde se apaixonar e crescer não eram coisas mais combinantes. Achava-se um anão em um mundo de gigantes certas vezes; ou um gigante num mundo de anões, noutras. Verdade é que a diversidade das belezas é mesmo sendo bela, nem sempre é sensata (dependendo da ocasião).
E Poeta crescia, sentia, e escrevia. Escrevia aos amores perdidos, aos amores sonhados, e aos amorer pos vir. Poeta amava, e Poeta era amado: por seus amores, seus versos. Poeta sabia que, todas as dores levariam a um mesmo fim, e que conhecimento e dor se comparam ao épico, não sendo mais do que puramente necessário para tudo. Tudo mesmo.
Tendo um grande amor, poeta se viu agraciado com a felicidade plena, que durou por uns anos, e foi-se.
Foi-se, foi-se, e nunca mais voltou.
Poeta sabia que a dor era uma ponte, mas por que tanta? Se tudo tende para um belo final, deveria existir limites para a dor… mas o limite é o infinito, e nada mais, ou menos. Escrevia mais e mais, com o intuito de deixar por gerações as coisas aprendidas. Mas, finalmente, com o passar do tempo, Poeta cansou.
Já havia passado muita dor, e muitos escritos tinham surgido dali. Versos, versos e mais vermes de todos os tipos, que cem anos depois se tornariam os versos e vermes mais famosos do mundo. Então assim, Poeta decidira por continuar, mas não de modo padrão. Adaptação.
Poeta, desse modo, começou a Adaptação. Tinha visto e estudado muito os gigantes(ou os anões) de seu mundo, percebeu que, por mais que assíncricronos fossem seus passos, eles andavam. Certas vezes, uns passavam por cima de outros. Uns eram esmagados. Outros? Esquartejados. Mas o mais incrível (e esta foi sua grande descoberta): eles andavam. Isso sim, era uma grande observação! E Poeta? Logicamente que havia percebido que, o jeito de se burlar a dor insana resultante do cavalheirismo excêntrico, ou romantismo clássico, era simplesmente aprender a andar. Andar como os anões(ou gigantes).
Pouco a pouco, escondendo seu verdadeiro ser, penetrando nas impuresas comuns aos imundos, Poeta se mascarou. Poeta escondeu as lagrimas que escorriam de seu coração há anos, e às transformou em risos singelos e sinceros. Sinceros como Judas, e calmos como o Dilúvio.
Experimentou do sumo da falsa alegria dos gigantes(ou anões), e viu que aquilo era bom (ou no mínimo insuportável). Viu também que, possível era viver daquele modo, como qualquer um, e pagar apenas o preço de ser eternamente vazio por dentro.
(não que ser completamente vazio por dentro fosse algo ruim. Como todos bem sabem, esse é o mundo dos anões(ou gigantes), e assim as pessoas iam vivendo suas vidas insuportavelmente felizes.)
Andou mais um pouco, e depois de tanto esconder seus sentimentos através de risos falsos, Poeta foi começando a se acostumar com a singularidade daquele mundo. Tudo ia bem, até que um dia, Poeta se apaixonou.
Sim, você leu exatamente isso. Ele, se apaixonou.
Mas, sangue é sangue, e sangue de Poeta era sangue de poeta e poetisa. Não resistiu. Mesmo se apaixonando por uma gigante(ou anã), ele não pode se conter em simplesmente mascarar. Teve que escrever, divagar, e ver novamente a beleza do mundo urbano selvagem. Mundo conhecido só dos poetas.
Poeta levou sua dama aos lugares que podia, ou conhecia, e fez tudo o que o costume cavalheirístico comum dizia. A dama, por sua vez, era singela em dizer que admirava tais qualidades, e que existia algo diferente em Poeta, uma qualidade ímpar, impossivel de ser visualizada noutros anões(ou gigantes). Claro, não esqueçamos que Poeta sempre mantera sua mente mascarada dos olhos alheios, e por isso parecia ser igual em um mundo de iguais, mas sabemos (sim, definitivamente sabemos) que ele não É igual.
Por se apaixonar, Poeta esquecera que naquele mundo tão averso, as pessoas andavam. Certas vezes, uns passavam por cima de outros. Uns eram esmagados e esquartejados. Mas o mais incrível: eles andavam. E Poeta? Este parara de andar. Poeta parara de andar para se dedicar a viver, e olhar a beleza do mundo selvagem urbano. O único problema era evidente, como os caros bem sabem: parar de andar… significa ser esmagado e esquartejado. E foi isso que aconteceu.
Poeta percebera que a Dama não ligava, definitivamente, para as qualidades de Poeta aversas aos gigantes(ou anões). Ao final, tanto fazia ele ser o vilão mascarado de paz ou o pacificador mascarado de mal. Definitivamente, era necessário não ter qualidades. Era necessário ser como todo o resto, ignorar os conceitos básicos existetes no sangue de um poeta (o que, lamentavelmente para nosso herói, era coisa que a genética impedia Poeta de fazer).
Ele descobriu muitas coisas com a Dama, e descobriu mais sobre si mesmo do que pudera jamais imaginar: descobriu que seria impossível mudar. Que Poeta jamais poderia deixar de ser poeta, quer escrevesse, quer sofresse, quer vivesse em paz ou em pranto.Existiria sempre um poeta interno gritando pela dor, e furioso e triste pela situação do mundo imundo dos anões(ou gigantes).
Por fim, Poeta percebeu que deveria retornar ao seu mundo, onde as pessoas comuns não são mais encontradas em esquinas ou ruas. No mundo de Poeta, países, culturas e generos longínquos separavam os amantes.
Nesse dia ele soube que a busca incessante por inspiração aos seus poemas seria eterna, e que as chances de poder infligir dano as barreiras de países, culturas e generos longínquos seriam mais do que ínfimas.
Tudo mudou na vida de Poeta, quando finalmente percebeu que o mundo dos gigantes, ou até quem sabe mesmo dos anões, é o mundo daqueles que pelos padrões nossos são os “considerados” “espertos”, ou para eles os considerados “comuns”.
Nesse dia, Poeta deixou de ser alguém. Ele simplesmente cansou, e abdicou do nome, da casta e da casa. Poeta esqueceu de tudo, e de todos. Lembrou apenas de duas coisas:
A primeira: deixando de ser, precisava ao mínimo ser chamado. E optou por ser chamado pelo que fora. Seu subnome passou a ser Poeta (que na verdade é o nome que conheceis, posto que ninguém que conta a história sabe do prévio, e portanto não sabe do antigo nome de Poeta)
A segunda: todo o conhecimento guardado por toda sua vida, sabiamente sintetizado em uma oração:
“Verdade, é que o mundo é, definitivamente, dos “considerados” “espertos”; e se apaixonar, enfim, é a qualidade dos fracos.”
”
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Eu iria comentar algo, como sempre faço. Percebi que, tudo o que queria dizer, já havia sido dito no começo, logo não há necessidade de mais comentários.
Após isso, pensei em deixar em branco, mas praticamente nunca faço isso, e seria estranho ao meu estilo: pra mim e pra quem me lê.
Por fim, resolvi escrever isso. Que no fim, no fim, não fala definitivamente nada…

Não acho que se apaixonar seja pros fracos.
Tirando isso, estou de acordo com o texto.
É estranho pensar num mundo onde sentimentos não são valorizados e “que isso fera” é suficiente para conquistar alguém
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Resp.: Eu também não acho (efetivamente) isso (afinal, não se pode confundir eu lírico com escritor) mas, de qualquer jeito, é um ponto de vista que está começando a ser bem expressivo nos dias de hoje…
bettaalbano disse isso em Fevereiro 3, 2009 às 10:19 pm |